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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Soneto



Correm turvas as águas deste rio,

que as do céu e as do monte as enturbaram;

os campos florescidos se secaram,

intratável se fez o vale, e frio.


Passou o verão, passou o ardente estio,

uas cousas por outras se trocaram;

os fementidos Fados já deixaram

do mundo o regimento, ou desvario.


Tem o tempo sua ordem já sabida.

o mundo, não; mas anda tão confuso

que parece que dele Deus se esquece.


Casos, opiniões, natura e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.


Luís Vaz de Camões

(Sonetos de Camões – Ed. Ateliê Editorial 4º. Edição – 2007 – São Paulo)

Foto: ramosforest©

2 comentários:

Djabal disse...

De uns tempos para cá, a mudança de perspectiva, ou melhor de tratamento que você dá às coisas é notável.
Hoje me deparo com o esquecido Camões, que tanta alegria e fruição dá à nossa pátria: a língua portuguesa. E desta vida há nela mais do que parece. Grande abraço.

Luma Rosa disse...

Passando pra te desejar um excelente fim de semana! Beijus,

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